ROMANTISMO- IRACEMA- JOSÉ DE ALENCAR

 

IRACEMA

Adaptação livre inspirada na obra de José de Alencar

Personagens

  • Iracema — jovem indígena, associada à natureza e à cultura de seu povo.

  • Martim — guerreiro português perdido na mata.

  • Poti — guerreiro indígena e amigo de Martim.

  • Araquém — líder e pai de Iracema.

  • Irapuã — guerreiro indígena contrário à presença de Martim.

  • Narrador — acompanha os acontecimentos e interfere em alguns momentos.


CENA 1 — A MATA

A manhã nasceu silenciosa.

Entre as árvores, a luz atravessava as folhas e desenhava pequenas manchas no chão. O vento movimentava os galhos, e os sons dos pássaros se espalhavam pela mata.

Iracema caminhava sozinha.

Conhecia cada caminho.

Cada árvore.

Cada ruído.

Sabia distinguir o som de um animal escondido daquele produzido pelo vento.

Parou de repente.

Alguma coisa havia se movido entre as folhas.

Iracema levou a mão à arma.

— Quem está aí?

Nenhuma resposta.

Ela avançou alguns passos.

Então viu um homem.

Era estrangeiro.

Estava ferido e parecia perdido.

Iracema permaneceu imóvel.

O homem levantou lentamente os olhos.

— Não quero fazer mal.

— Quem é você?

— Martim.

— Martim de onde?

Ele hesitou.

— De muito longe.

Iracema observou suas roupas, suas armas e seu rosto.

Nada nele pertencia àquela mata.

— Você está perdido.

— Estou.

— Então por que entrou aqui?

Martim olhou ao redor.

— Eu não sabia para onde estava indo.

Iracema abaixou a arma.

— Venha.

— Para onde?

— Para minha aldeia.

O estrangeiro hesitou.

— Seu povo vai me aceitar?

Iracema olhou para ele.

— Isso depende do que você fizer.

E começou a caminhar.

Martim a seguiu.


CENA 2 — A ALDEIA

A chegada de um estrangeiro provocou desconfiança.

Araquém observou Martim em silêncio.

Poti aproximou-se.

— Ele é português?

Martim respondeu:

— Sou.

Poti olhou para Araquém.

— Não deveríamos deixá-lo ficar.

Irapuã apareceu logo depois.

— Muito menos confiar nele.

Martim manteve-se firme.

— Não vim para lutar contra vocês.

Irapuã deu um passo à frente.

— Todo estrangeiro diz isso quando está em desvantagem.

Iracema interveio.

— Ele estava ferido.

— E você o trouxe para cá.

— Sim.

— Por quê?

Ela demorou um instante.

— Porque precisava de ajuda.

Irapuã não gostou da resposta.

Araquém levantou a mão.

— Basta.

Todos ficaram em silêncio.

— O estrangeiro será nosso hóspede enquanto permanecer sob minha proteção.

Irapuã fechou o rosto.

— E se ele estiver mentindo?

Araquém respondeu:

— Então a verdade aparecerá.

Martim olhou para Iracema.

Ela desviou os olhos.

Naquele momento, nenhum dos dois poderia imaginar que aquela decisão mudaria o destino de todos.


CENA 3 — IRACEMA

Nos dias seguintes, Martim permaneceu na aldeia.

Poti começou a acompanhá-lo.

Os dois conversavam sobre guerras, caminhos e costumes diferentes.

— Seu povo vive muito longe daqui?

— Muito.

— E como é sua terra?

Martim pensou.

— Diferente.

— Isso não explica nada.

Ele sorriu.

— É difícil explicar uma terra para quem nunca a viu.

Iracema estava próxima.

— A mata também é difícil de explicar.

Martim olhou para ela.

— Talvez porque algumas coisas não precisem ser explicadas.

Iracema sorriu discretamente.

Poti percebeu.

— Vocês dois conversam cada vez mais.

Martim respondeu:

— Estamos apenas conversando.

Poti riu.

— Claro.

Iracema continuou andando.

A natureza parecia acompanhar seus passos.

O vento mexia seus cabelos.

As folhas se movimentavam quando ela passava.

Para Martim, era como se a própria paisagem tivesse tomado forma humana.


CENA 4 — ENTRE DOIS MUNDOS

Certa tarde, Martim e Iracema caminharam pela mata.

— Você nunca teve vontade de conhecer outras terras?

— Nunca.

— Nem por curiosidade?

Iracema pensou.

— Minha terra está aqui.

— E se você pudesse conhecer a minha?

Ela olhou para ele.

— Eu não saberia se pertenceria a ela.

Martim ficou em silêncio.

— Talvez ninguém pertença completamente a lugar nenhum.

Iracema respondeu:

— Você fala como quem já deixou uma terra para trás.

Martim baixou os olhos.

— Talvez tenha deixado.

Ela continuou caminhando.

— Você sente saudade?

— Às vezes.

— E daqui?

Martim olhou para a mata.

— Daqui também.

Iracema parou.

— Você já pensa nesta terra como sua?

— Não.

— Ainda bem.

Ele sorriu.

— Por quê?

— Porque esta terra não pertence a quem simplesmente chega.

Martim ficou sério.

A frase permaneceu entre os dois.


CENA 5 — IRAPUÃ

Irapuã não confiava em Martim.

Observava o estrangeiro de longe.

— Ele precisa partir.

Poti respondeu:

— Ele não veio para lutar.

— Você acredita nisso?

— Acredito no que vejo.

— E o que você vê?

Poti ficou em silêncio.

Irapuã continuou:

— Vejo um homem de outra terra vivendo entre nós.

— Ele foi recebido por Araquém.

— Isso não o torna um dos nossos.

Poti respondeu:

— Talvez ele não queira ser um dos nossos.

— Então o que quer?

Poti olhou para Iracema.

Irapuã percebeu.

— É isso.

— Isso o quê?

— Você sabe.

Poti não respondeu.

Irapuã saiu.

A presença de Martim começava a dividir a aldeia.

Não era apenas a presença de um estrangeiro.

Era o encontro de dois mundos que não conheciam completamente os costumes um do outro.


CENA 6 — A ESCOLHA

Iracema sabia que havia regras que não poderiam ser ignoradas.

Seu povo possuía tradições antigas.

E algumas delas determinavam aquilo que podia ou não podia acontecer.

Certa noite, Martim encontrou Iracema perto da mata.

— Você está diferente.

— Estou pensando.

— Em quê?

— Em nós.

Martim ficou quieto.

— Você sabe que não será simples.

— Eu sei.

— Nossos povos são diferentes.

— Eu sei.

— E talvez não aceitem o que sentimos.

Martim respirou fundo.

— Então o que fazemos?

Iracema olhou para o céu.

— Não sei.

— Você se arrepende de ter me encontrado?

Ela respondeu imediatamente:

— Não.

— Então...

Ela interrompeu:

— Às vezes, querer uma coisa não significa que podemos tê-la.

Martim aproximou-se.

— E se eu ficar?

Iracema olhou para ele.

— Então você terá que escolher o que deixar para trás.


CENA 7 — A PARTIDA

O conflito se aproximava.

Martim sabia que não poderia permanecer para sempre.

Poti o procurou.

— Precisamos partir.

— Agora?

— Antes que seja tarde.

Martim olhou para trás.

Iracema estava distante.

— E ela?

Poti não respondeu imediatamente.

— Você sabe que não pode levá-la sem consequências.

— E abandoná-la?

— Também terá consequências.

Martim ficou em silêncio.

— Nunca imaginei que uma terra pudesse prender alguém dessa maneira.

Poti respondeu:

— Talvez não seja a terra.

Martim olhou para ele.

— O que é, então?

— Você sabe.

Os dois partiram.

Iracema observou de longe.

Não chorou.

Pelo menos não diante dos outros.

Mas a mata, que antes parecia acolher seus passos, agora parecia silenciosa demais.


CENA 8 — A GUERRA

O conflito entre grupos indígenas se aproximava.

Irapuã defendia a luta.

— Não podemos permitir que os estrangeiros avancem.

Araquém respondeu:

— Guerra não resolve tudo.

— Às vezes é a única resposta.

Poti preparava-se para partir com Martim.

— Você vai lutar ao lado dele?

— Sim.

— Contra os nossos?

— Não contra os nossos. Contra aqueles que vierem destruir o que temos.

Irapuã ouviu.

— Você já fala como estrangeiro.

Poti respondeu:

— E você já esqueceu que a coragem não pertence a um único povo.

Irapuã avançou.

Araquém interveio.

— Chega!

O ambiente ficou tenso.

Martim observava.

A cada discussão, percebia que sua presença não era apenas uma questão pessoal.

Ele havia chegado trazendo consigo outro mundo.

E aquele mundo começava a tocar tudo ao seu redor.


CENA 9 — IRACEMA E MARTIM

Quando finalmente se encontraram novamente, os dois estavam diferentes.

Martim havia vivido conflitos.

Iracema havia enfrentado a própria aldeia.

— Você voltou.

— Voltei.

— Por quê?

Martim demorou.

— Porque não consegui esquecer.

Iracema abaixou os olhos.

— Eu também não.

Ele se aproximou.

— Então venha comigo.

Ela olhou para a aldeia.

Depois para a mata.

— E tudo isso?

— Você não precisa esquecer.

— Mas se eu for, deixarei tudo para trás.

Martim respondeu:

— Eu também deixei.

Iracema sorriu tristemente.

— Talvez seja esse o preço de escolher.

O vento passou entre as árvores.

As folhas se movimentaram.

Por um instante, parecia que a própria natureza escutava aquela conversa.


CENA 10 — O FILHO

O tempo passou.

Iracema teve um filho.

A criança era pequena e frágil.

Ela o segurava junto ao peito enquanto observava o horizonte.

Martim aproximou-se.

— Ele dormiu?

— Agora sim.

— Está cansado?

— Estou.

— Precisa descansar.

Iracema sorriu.

— Mães sempre dizem que estão bem.

Martim sentou-se ao lado dela.

— E você está?

Ela olhou para o filho.

— Estou.

Mas sua voz já não tinha a mesma força.

Poti chegou trazendo água.

— Como ele está?

— Dormindo.

Poti observou a criança.

— Tem os olhos do pai.

Iracema sorriu.

— E talvez tenha alguma coisa da mãe.

Poti respondeu:

— Isso certamente.

Martim segurou a mão de Iracema.

Ela fechou os olhos por alguns segundos.

A mata permanecia ao redor.

O vento passava suavemente.

Os sons dos pássaros preenchiam o espaço.


CENA 11 — A DESPEDIDA

Os dias seguintes foram difíceis.

Iracema estava cada vez mais fraca.

Martim permanecia ao seu lado.

— Você precisa ficar.

— Eu estou ficando.

— Não assim.

Ela sorriu.

— Você ainda não aprendeu que algumas coisas não obedecem à nossa vontade?

Martim ficou em silêncio.

— Eu queria que tudo fosse diferente.

— Eu também.

— Se pudéssemos começar novamente...

Iracema interrompeu:

— Talvez começássemos do mesmo jeito.

— Por quê?

Ela olhou para a mata.

— Porque foi aqui que nos encontramos.

Martim segurou sua mão.

— Eu nunca vou esquecer você.

Iracema fechou os olhos.

— Então não esqueça também esta terra.

Ele não respondeu.

Apenas permaneceu ao lado dela.


CENA 12 — A TERRA

Depois daquele dia, a paisagem parecia guardar uma lembrança.

Martim permaneceu olhando para a mata.

Poti estava ao seu lado.

— Ela amava esta terra.

— Eu sei.

— E agora?

Martim olhou para o horizonte.

A criança dormia em seus braços.

— Agora eu tenho alguém para lembrar dela.

Poti permaneceu em silêncio.

O vento movimentou as folhas.

A mata continuava viva.

Os rios seguiam seu caminho.

Os pássaros continuavam cantando.

A terra permanecia ali, indiferente e ao mesmo tempo presente em tudo.

Martim caminhou lentamente.

Levava consigo o filho.

Levava também a lembrança de Iracema.

E, naquela caminhada, duas histórias que antes pareciam distantes começavam a se misturar.

De um lado, o homem que vinha de além-mar.

Do outro, a mulher que pertencia àquela terra.

Entre eles, havia um amor.

Havia conflito.

Havia perda.

E havia uma criança.

O menino cresceria carregando em si a marca de dois mundos.

Talvez fosse essa a maior lembrança deixada por Iracema:

uma história nascida do encontro entre povos diferentes, entre culturas diferentes e entre uma terra que já existia e aqueles que chegavam para transformá-la.

A mata permaneceu em silêncio.

Mas, naquela manhã, parecia guardar um nome.

Iracema.

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